Diagnóstico Clínico Laboratorial de Transtornos Depressivos

 TRANSTORNOS DEPRESSIVOS


Os transtornos depressivos respondem por parcela expressiva da demanda anual das redes de atenção psicossocial no Brasil, condição cujo diagnóstico é essencialmente clínico. Contudo, minha experiência reforça a importância da investigação laboratorial complementar, capaz de identificar causas orgânicas de sintomas depressivos e comorbidades frequentemente subdiagnosticadas.

Assim como na investigação da ansiedade, a avaliação da função tireoidiana ocupa posição central na minha rotina diante de um paciente com sintomas depressivos: o hipotireoidismo é causa orgânica clássica e bem documentada de quadros depressivos, muitas vezes acompanhado de fadiga, ganho de peso e lentificação psicomotora, tornando a dosagem de TSH exame obrigatório na propedêutica inicial desses pacientes.

Outro pilar da minha investigação é a avaliação nutricional, particularmente a dosagem de vitamina B12 e ácido fólico, cujas deficiências estão associadas a quadros depressivos, alterações cognitivas e, em casos mais avançados, a manifestações neurológicas específicas. A dosagem de vitamina D também tem ganhado relevância crescente na literatura científica, com evidências consistentes associando níveis insuficientes a maior prevalência e gravidade de sintomas depressivos, embora a relação causal ainda seja objeto de debate científico e careça de estudos de intervenção mais robustos.

O hemograma completo permanece exame de triagem essencial, capaz de identificar anemias que cursam com fadiga e apatia, sintomas frequentemente sobrepostos ao quadro depressivo. Complemento a avaliação com função renal e hepática, sobretudo em pacientes idosos ou com uso crônico de medicações, tanto para investigar causas metabólicas de sintomas depressivos quanto para garantir segurança na prescrição de antidepressivos, muitos dos quais possuem metabolismo hepático e eliminação renal relevantes para o ajuste posológico adequado.

Em situações específicas, participo ainda da investigação de disfunções do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, por meio da dosagem de cortisol, e da exclusão de causas medicamentosas, uma vez que diversos fármacos de uso crônico, corticoides, betabloqueadores e alguns anti-hipertensivos, entre outros, podem induzir ou agravar sintomas depressivos, informação relevante para a revisão terapêutica global do paciente junto à equipe médica. Do ponto de vista pré-analítico, reforço sempre a padronização do horário de coleta para dosagens hormonais e a documentação completa do uso de medicações em curso pelo paciente, informação frequentemente negligenciada, mas essencial para a correta interpretação dos resultados.

Assim, embora o tratamento dos transtornos depressivos permaneça no campo da psiquiatria e da psicologia, a investigação laboratorial criteriosa é ferramenta indispensável para identificar fatores orgânicos tratáveis, otimizando o cuidado integral e multiprofissional desses pacientes.



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