Diagnóstico Clínico Laboratorial dos Transtornos de Ansiedade

 Diagnóstico Clínico Laboratorial
dos Transtornos de Ansiedade


O Brasil figura entre os países com maiores taxas de prevalência e incidência de transtornos de ansiedade do mundo, condição que, embora tenha diagnóstico eminentemente clínico e psiquiátrico, encontra no laboratório de análises clínicas um aliado indispensável, não para confirmar o diagnóstico psiquiátrico em si, mas para excluir causas orgânicas que mimetizam ou agravam os sintomas ansiosos.

Diante de um paciente com quadro de ansiedade de início recente, taquicardia, tremores e sudorese, meu primeiro passo é investigar disfunções tireoidianas, por meio de TSH e T4 livre. O hipertireoidismo é a principal causa orgânica capaz de mimetizar um transtorno de ansiedade primário, gerando sintomas praticamente indistinguíveis sem avaliação laboratorial adequada.

Complemento essa investigação com hemograma completo, capaz de identificar anemias que cursam com palpitação e fadiga, e com glicemia, uma vez que episódios de hipoglicemia podem se manifestar com sintomas adrenérgicos indistinguíveis de crises de pânico. Em casos selecionados, avalio ainda cálcio e magnésio séricos, cujas alterações também cursam com sintomas neuropsíquicos semelhantes.

Outro aspecto relevante é a investigação toxicológica, sobretudo em jovens com sintomas de início abrupto, nos quais o uso de estimulantes deve ser sistematicamente considerado, assim como a síndrome de abstinência de álcool ou benzodiazepínicos, capaz de gerar quadro exuberante de ansiedade e agitação psicomotora, muitas vezes confundido, à primeira vista, com um transtorno de ansiedade primário sem relação com o uso de substâncias.

Do ponto de vista pré-analítico, oriento sobre a coleta em horário e condições padronizadas, uma vez que variações circadianas e o próprio estresse agudo da coleta podem interferir discretamente nos resultados, especialmente do cortisol, quando sua dosagem é indicada para investigação de quadros com sintomas superponíveis a transtornos do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Em pacientes que apresentam sintomas cardiovasculares mais exuberantes concomitantes à ansiedade, como dor torácica atípica, participo ainda, em conjunto com a avaliação clínica, da dosagem de troponina e eletrólitos, auxiliando na exclusão de causas cardíacas orgânicas antes da definição final de que o quadro é primariamente ansioso.

Dessa forma, ainda que o diagnóstico definitivo dos transtornos de ansiedade permaneça no campo clínico e psiquiátrico, a exclusão criteriosa de causas orgânicas por meio do laboratório de análises clínicas é etapa indispensável, evitando diagnósticos equivocados, tratamentos inadequados e atrasos na identificação de condições clínicas potencialmente tratáveis que se escondem por trás de um quadro aparentemente psiquiátrico.



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