Eletrólitos Séricos
(Potássio, Sódio e Magnésio)
A dosagem dos eletrólitos séricos, com destaque para o potássio, o sódio e o magnésio, é um componente inegociável e urgente da avaliação laboratorial do paciente cardiológico, pois a homeostase iônica é o fundamento eletroquímico sobre o qual repousa a geração e a condução do impulso elétrico no coração. A membrana dos cardiomiócitos, em repouso, mantém um gradiente iônico transmembrana rigoroso, com alta concentração intracelular de potássio e baixa de sódio, sustentado pela bomba Na+/K+-ATPase. Este gradiente é o responsável pelo potencial de repouso da membrana, e variações nas concentrações extracelulares destes íons alteram a excitabilidade cardíaca, a velocidade de condução e a duração do potencial de ação, predispondo a arritmias ventriculares e atriais potencialmente fatais. Na sala de emergência, a solicitação de eletrólitos é mandatória em toda avaliação de dor torácica, síncope, palpitação e parada cardíaca.
O potássio é o eletrólito cujas alterações têm as consequências mais imediatas e graves para o coração. A hipocalemia, definida como potássio sérico inferior a 3,5 mEq/L, provoca um prolongamento do potencial de ação e do intervalo QT no eletrocardiograma, achatamento da onda T e aparecimento de ondas U proeminentes, um substrato eletrofisiológico para torsades de pointes, uma taquicardia ventricular polimórfica. A hipercalemia, potássio superior a 5,5 mEq/L, é uma emergência com risco de vida iminente, causando alterações progressivas no ECG que culminam em fibrilação ventricular e assistolia. A insuficiência renal, o uso de inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona e a acidose são causas comuns.
O sódio e o magnésio são igualmente críticos. Alterações graves na natremia causam efeitos neurológicos predominantes, mas a correção rápida da hiponatremia crônica pode causar a síndrome de desmielinização osmótica. A hipomagnesemia, comum em pacientes desnutridos, alcoólatras e em uso de diuréticos, predispõe a arritmias ventriculares e digitálicas, e a reposição de magnésio é o tratamento de primeira linha para torsades de pointes. A hipomagnesemia frequentemente se acompanha de hipocalemia refratária à reposição de potássio, pois o magnésio é um cofator da bomba Na+/K+-ATPase. Em suma, o perfil de eletrólitos é o exame que garante a estabilidade elétrica do miocárdio, e a correção imediata de qualquer desvio da normalidade iônica é uma das intervenções mais rápidas e salvadoras na cardiologia de emergência.
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