Troponina de Alta Sensibilidade
(TnI ou TnT)
A troponina cardíaca de alta sensibilidade, seja a isoforma I (TnI) ou a isoforma T (TnT), representa o biomarcador mais específico e sensível para a detecção de necrose miocitária, constituindo o padrão-ouro laboratorial para o diagnóstico do Infarto Agudo do Miocárdio. As troponinas são proteínas estruturais que formam o complexo regulador da contração muscular no sarcômero, controlando a interação cálcio-dependente entre os filamentos de actina e miosina. O complexo da troponina é composto por três subunidades: a troponina C, que se liga ao cálcio; a troponina I, que inibe a interação actina-miosina; e a troponina T, que ancora o complexo à tropomiosina. As isoformas cardíacas da TnI e da TnT são expressas exclusivamente nos miócitos cardíacos, e diferem antigenicamente das isoformas do músculo esquelético, o que confere aos imunoensaios uma especificidade tecidual virtualmente absoluta. A presença de troponina cardíaca circulante no sangue periférico é, portanto, sinônimo de dano ao cardiomiócito, independentemente do mecanismo fisiopatológico que o causou.
A evolução dos ensaios convencionais para os ensaios de alta sensibilidade representou uma mudança de paradigma. Os ensaios de alta sensibilidade são capazes de detectar concentrações de troponina ordens de grandeza menores do que os ensaios anteriores, permitindo a quantificação da proteína em níveis circulantes basais em indivíduos saudáveis, e definindo o percentil 99 do limite superior de referência com uma precisão inédita. Esta sensibilidade extrema permite a detecção precoce de necrose miocárdica mínima, encurtando o tempo para o diagnóstico de IAM. O algoritmo diagnóstico atual, recomendado pelas diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia, utiliza a dosagem da troponina de alta sensibilidade na admissão e após uma ou duas horas, o chamado algoritmo de 0h/1h ou 0h/2h. A combinação de um valor basal e uma variação absoluta permite, através de pontos de corte validados, classificar o paciente como "rule-out", ou seja, de exclusão de IAM, "rule-in", de confirmação de IAM, ou "zona de observação", em um tempo muito inferior ao algoritmo de 0h/3h ou 0h/6h dos ensaios convencionais.
A elevada sensibilidade do exame, contudo, implica uma redução da especificidade para a etiologia isquêmica. A troponina é um marcador de lesão miocárdica, não de infarto. Elevações de troponina de alta sensibilidade acima do percentil 99 são observadas em uma vasta gama de condições não isquêmicas, incluindo miocardites, embolia pulmonar aguda com sobrecarga ventricular direita, taquicardias e bradicardias extremas, sepse, insuficiência renal crônica e insuficiência cardíaca aguda. A interpretação do resultado exige, portanto, uma correlação clínica meticulosa, e o diagnóstico de IAM requer a demonstração de uma curva dinâmica, com elevação e queda dos níveis, associada a um contexto de isquemia miocárdica. A troponina de alta sensibilidade, em suma, é o exame que define se houve dano ao miócito, cabendo ao clínico, com base no quadro clínico e no eletrocardiograma, determinar se este dano é de etiologia coronariana aguda ou secundário a outra condição.
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