9 PASSO DE COMO ABRIR UM LABORATÓRIO DE ANÁLISES CLÍNICAS * 3º Passo Escolha e Adequação da Infraestrutura Física (RDC 50/ANVISA)
Escolha e Adequação da Infraestrutura
Física (RDC 50/ANVISA)
A adequação da infraestrutura física de um laboratório
de análises clínicas às exigências regulatórias brasileiras representa, sob a
perspectiva técnica de um farmacêutico especialista em análises clínicas, uma
das etapas mais complexas e tecnicamente exigentes de todo o processo de
abertura do empreendimento. O documento central que rege essa adequação é a
Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 50 da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária, norma que estabelece o regulamento técnico para planejamento, programação,
elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de
saúde, incluindo, de forma específica, os laboratórios clínicos.
O princípio arquitetônico mais fundamental
estabelecido pela RDC 50, e que deve nortear toda a concepção do projeto físico
do laboratório, é o conceito de fluxo unidirecional. Esse princípio determina
que o desenho do espaço físico deve garantir que amostras biológicas, materiais
e, na medida do possível, pessoas circulem em um sentido único e progressivo,
da área de menor risco biológico para a área de maior risco, e desta para o
descarte, sem que haja cruzamento entre fluxos limpos e fluxos contaminados.
Essa lógica arquitetônica não é uma formalidade regulatória arbitrária, mas um
princípio de biossegurança fundamentado em décadas de evidência científica
sobre a prevenção de contaminação cruzada em ambientes laboratoriais,
protegendo tanto a integridade analítica das amostras processadas quanto a
segurança dos profissionais que ali trabalham diariamente.
Na prática, esse princípio se traduz na necessidade de
segregação física clara entre, ao menos, seis áreas funcionais distintas, cuja
proporção relativa está ilustrada no gráfico que acompanha este capítulo. A
área de recepção e sala de espera constitui o primeiro ponto de contato do
paciente com o laboratório, devendo ser projetada com atenção à acessibilidade,
ao conforto e à privacidade no momento do cadastro e da entrega de documentos e
pedidos médicos. Em seguida, as salas de coleta, que devem ser dimensionadas
em número suficiente para evitar filas e tempos de espera excessivos,
especialmente nos horários de maior demanda matutina, característicos da rotina
de coleta de exames de jejum, precisam contar com pia exclusiva para
higienização das mãos do coletador, cadeira ou maca adequada para coleta em
diferentes posições, e descarte apropriado de materiais perfurocortantes
imediatamente acessível, em conformidade com as normas de biossegurança
ocupacional.
A área técnica de processamento, coração operacional
do laboratório, deve ser dimensionada de forma a acomodar adequadamente os
equipamentos analisadores automatizados de bioquímica, hematologia, imunologia
e demais setores conforme o portfólio de exames definido no plano de negócios
discutido no primeiro capítulo desta obra, respeitando distâncias mínimas entre
bancadas, ventilação adequada, e pontos de energia elétrica estabilizada e,
quando necessário, sistema de nobreak para os equipamentos mais sensíveis a
interrupções de fornecimento. A área de lavagem e esterilização de materiais,
embora com relevância proporcionalmente menor em laboratórios que utilizam
predominantemente materiais descartáveis, tendência amplamente consolidada na
prática laboratorial contemporânea, ainda se faz necessária para determinados
materiais reutilizáveis e para o processamento de vidrarias em laboratórios com
maior complexidade analítica.
Por fim, o depósito de resíduos, tema que será
aprofundado no capítulo desta obra dedicado especificamente ao Plano de
Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde, deve ser posicionado
estrategicamente no extremo final do fluxo unidirecional, com acesso facilitado
para a coleta externa por empresa especializada, e fisicamente isolado das
demais áreas do laboratório, evitando qualquer possibilidade de contaminação
cruzada com áreas de circulação de pacientes ou de processamento técnico de
amostras.
A adequação a essas exigências da RDC 50 deve ser incorporada ao projeto
arquitetônico desde sua concepção inicial, e não como uma adaptação posterior a
um projeto já finalizado, prática que, na experiência prática do setor,
costuma gerar retrabalho significativo, custos adicionais expressivos e atrasos
consideráveis no cronograma de abertura do laboratório. A contratação de um
arquiteto com experiência específica em projetos de estabelecimentos assistenciais
de saúde, em estreita colaboração com o farmacêutico responsável técnico desde
as primeiras plantas do projeto, é, portanto, um investimento que se paga
muitas vezes ao longo da vida útil do empreendimento, evitando problemas que
poderiam comprometer significativamente tanto a aprovação do alvará sanitário,
discutida em capítulo posterior desta obra, quanto a própria eficiência
operacional cotidiana do laboratório já em funcionamento pleno.
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