Neoplasias Mieloproliferativas e Mielodisplásicas

Neoplasias Mieloproliferativas
e Mielodisplásicas


As neoplasias mieloproliferativas e as neoplasias mielodisplásicas são doenças clonais originadas em célula-tronco hematopoética, porém expressam comportamentos distintos. Nas mieloproliferativas predomina produção aumentada e relativamente madura de uma ou mais linhagens; nas mielodisplásicas, hematopoiese ineficaz, citopenias, displasia e risco variável de progressão para leucemia mieloide aguda. A avaliação contemporânea integra hemograma seriado, sangue periférico, aspirado e biópsia medular, citogenética e mutações, seguindo a quinta edição da OMS ou a International Consensus Classification, sistemas próximos, mas não idênticos em nomenclatura e alguns limiares.

A leucemia mieloide crônica é definida pela fusão BCR::ABL1, geralmente decorrente de t(9;22). Leucocitose com granulócitos em diferentes estágios, basofilia e esplenomegalia são características, e a medula mostra hiperplasia granulocítica com megacariócitos pequenos e hipolobulados. A demonstração de BCR::ABL1 por cariótipo, FISH ou RT-PCR confirma a entidade; PCR quantitativa padronizada acompanha resposta aos inibidores de tirosina-quinase. A fase blástica representa transformação agressiva e exige determinação de linhagem.

Entre as neoplasias mieloproliferativas BCR::ABL1-negativas, policitemia vera associa-se sobretudo a JAK2 p.V617F ou mutações no éxon 12, eritrocitose e panmielose medular. Trombocitemia essencial apresenta trombocitose sustentada e proliferação de megacariócitos grandes, maduros e hiperlobulados, com mutações condutoras em JAK2, CALR ou MPL. Mielofibrose primária mostra proliferação e atipia megacariocítica, podendo iniciar em fase pré-fibrótica e evoluir para fibrose, osteoesclerose, leucoeritroblastose, dacriócitos e hematopoiese extramedular. A graduação de reticulina e colágeno deve ser reprodutível. Diferenciar trombocitemia essencial de mielofibrose pré-fibrótica é essencial porque prognóstico e risco de progressão diferem. Ausência dos três condutores clássicos não exclui neoplasia, mas exige investigação ampliada e rigorosa exclusão de causas reativas.

As neoplasias mielodisplásicas são organizadas por alterações genéticas definidoras ou por morfologia. Citopenia persistente deve ser confrontada com deficiências de B12, folato ou cobre, álcool, fármacos, infecções e doenças autoimunes. Displasia significativa, aumento de blastos e clonabilidade sustentam o diagnóstico. Alterações em SF3B1, del(5q), TP53 bialélico ou multihit e outros genes delineiam grupos biologicamente distintos; sideroblastos em anel refletem ferro mitocondrial, frequentemente relacionado a SF3B1. A OMS emprega a denominação neoplasia mielodisplásica, enquanto a ICC mantém síndrome mielodisplásica e inclui a categoria MDS/AML para casos com 10–19% de blastos, diferença que deve constar no laudo quando relevante.

Citogenética e NGS refinam prognóstico, mas variantes isoladas podem representar hematopoiese clonal de potencial indeterminado ou citopenia clonal de significado indeterminado. Portanto, clone não equivale automaticamente a neoplasia manifesta. Escores prognósticos incorporam citopenias, blastos, cariótipo e, em modelos moleculares, perfil mutacional. A análise longitudinal detecta progressão, fibrose, aquisição clonal e transformação. Em casos limítrofes, revisar duração das citopenias, terapias prévias, exposição a agentes citotóxicos e qualidade da amostra previne conclusões precipitadas. A biópsia também deve documentar topografia dos megacariócitos, agrupamentos, distribuição de blastos CD34-positivos e eventuais infiltrados associados. O papel do hemopatologista é demonstrar coerência entre fenótipo proliferativo ou displásico, arquitetura medular e lesão clonal, evitando tanto subdiagnóstico quanto classificação excessiva. Essa documentação favorece comparações futuras e decisões terapêuticas baseadas na evolução clonal.

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